sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Bardo e as velhas tragédias da vida moderna.


Imaginemos Shakespeare, convocando o seu famoso e mítico elenco, o mesmo de suas famosas tragédias para uma reunião de bastidores. Diante dos personagens que o atenderam prontamente a convocação,  segue sua exposição:
- Em uma noite há duas semanas, tive um sonho maravilhoso, sonhei que estava no futuro, no ano de 2015.  Vi um mundo e humanidade mudados, muito diferentes dos atuais, e portanto os convoquei, no intuito de propor uma readaptação de nossas obras para o porvir. O que acham de levar os textos que preparei, e na próxima semana nos reunirmos novamente para discutir esse novo empreendimento?

No dia marcado, todos os nossos personagens apresentam-se com semblantes taciturnos, rostos meio desfigurados, andares vacilantes. Ao acomodarem-se em torno de William, entreolham-se com um misto de indignação e consternação, o que é evidentemente percebido,  e nosso sonhador amigo inicia o diálogo:
- O que houve meus amigos, que caras são essas?

Os personagens olham-se novamente dando a entender de que aguardavam quem tomaria primeiro a palavra e que também já haviam se reunido anteriormente, então quebra-se o silêncio:

(Julieta) - William, essa nova estória, Deus!! achei que desta vez eu e Romeu viveríamos o nosso amor sem interferências, sem preconceitos e sem perseguições. Acabar ambos executados com "tiros de fuzil" por membros da facção dos capuletos em um quarto de "motel", e com requintes de crueldade por conta de guerra de fações rivais. Comunidade dos montecchios contra a comunidade dos capuletos, sendo chamada por esses assassinos de "traíra", "x9". William não entendo! o que é motel? Que é fuzil?  Que expressões são essas?

(Romeu) - Senhor que devo compreender sobre Benvólio e Teobaldo disputarem "pontos de drogas"? e depois de Teobaldo "fechar" Mercúrio, entramos em luta corporal, e sua "beretta 9mm" dispara acidentalmente tirando sua vida. beretta 9mm? Ponto de drogas? fechar? Não entendo.

A partir deste momento uma tempestade de perguntas  e reclamações desabam sobre sua cabeça:

(Lear) - Expulsar minha filha Cordélia por ela se envolver com um homem de outra raça e classe social diferentes? Depois para me afastarem dos negócios do meu império empresarial, sofro violento atentado contra a vida, tramado pelas minhas outras filhas em conluio com seus maridos, ambos advogados e sócios com o "escritório Cornualha & Albany associados". Não há ética e nem moral nessa moderna sociedade, que ainda permita que homens que vivam no meio legal, ainda cometam tais crimes?

(Glaucester) - Depois de ser incriminado pelos genros do meu amigo pela tentiva contra a sua vida e ser preso injustamente, trama esta da qual meu filho ilegítimo Edmundo participa, dando falso testemunho contra mim. Quando sou libertado ainda sou assassinado?

(Edmundo) - Depois do uso político da trama em que falsamente testemunhei contra meu pai, e de forjar a morte de Cordélia e seu esposo através de um acidente de carro, é certo que seria passível pelas Leis atuais de enforcamento ou prisão perpétua nas masmorras, e no entanto acabo sendo preso e por pouquíssimo tempo por ser implicado em  "CPI's" do "mensalão" e no processo do "petrolão". Que justiça insana é essa do futuro? Que lugar é esse? Me parece o paraíso ideal para criminosos e infratores.

(Edgard) - Eu e Kant parecemos cair de paraquedas no fim da trama não acha? Kant como meu amigo e advogado e eu considerado legalmente incapaz, acabo por herdar toda fortuna de Lear e seu império?

(Mackbeth) - Quanto as profecias e as três bruxas serem substituídas por "cartomantes" e "jogadoras de búzios" tudo bem, mas alterastes um pouco o contexto já que lady Macbeth deixou de ser minha comparsa, e se torna testemunha do meu crime, e me escraviza com chantagens em troca de seu silêncio, já que exercia a profissão de jornalista de um grande veículo e viu quando atirei em Duncan no dia de sua posse como presidente eleito dentro da basílica, durante sua cerimônia de posse que finalizava um período de intensa ditadura. Depois de assumir o seu lugar fui quase expulso pelo povo, e no entanto os meus sucessores, eleitos por esse mesmo povo, dizem não ser possível governar sem o meu apoio, inclusive os radicais. Que Hilário? Essa política moderna é supreendente e muito parecida com aquela que aleijou o Estado romano.

(Lady Macbeth) - Willie, minha participação  na trama ficou insignificante depois deste fato, só me ocupo de fazer matérias de jornalista de segundo escalão, e agora me chamo Mary? Isso é um tédio.

(Otelo) - Will, achei estranho esse enredo, aliás bastante complexo. Nascido no Brasil em comunidade pobre, me torno o maior "jogador de futebol" do mundo, sou negociado com o "clube" Barcelona, conheço Desdêmona na "night", "ficamos", sentimos que a nossa relação de "pele" é muito forte? Por causa da perseguição de seu pai, um político importante da Europa, fecho contrato com um "clube de massa" brasileiro. Ao retornar a minha terra, conheço um fã, nos tornamos amigos e o jovem Cassio vira meu procurador, meu "marqueteiro"? É o que desperta a ira de Iago, amigo de longa data. Depois de estrangular minha amada e Cassio, e atear fogo na minha casa para encobrir o crime, sou inocentado por bons advogados e por conta do meu prestígio junto a opinião pública. Acabo morrendo pelas mãos de um torcedor enfurecido e fanático, por conta das minhas más atuações e o consequente rebaixamento do seu "time a segunda divisão", Uau, que isso Will? Toda essa passionalidade, ainda é motivação para crimes no futuro?

(Iago) - Willian, o meu personagem manteve-se conforme o anterior, essa trama contra Otelo, jogá-lo contra Desdêmona e Cassio. Achei legal essa ideia de promover o encontro de Brabâncio e o torcedor para tramar a morte de Otelo, dando a entender que o crime fora passional. Mas esse negócio de "imprensa marrom", e ser homossexual não assumido, "sair do armário" achei um tanto esquisito. O público no futuro aceitará tal coisa?

(Desdêmona) - Willie, esse comportamento machista, essa violência contra a mulher ainda é permitida no futuro?

(Shakespeare) - E você Hamlet, não tem nada a dizer?

(Hamlet) -  Will, te responderei conforme a forma de falar que me fora atribuída nesta sua nova empreitada.  Mano, essa sua "viagem" durante o meu monólogo: "...Ser ou não ser, eis a questão... aí grita alguém da platéia: - "Sai do armário Barbie!!!!". Me transformando de antigo perturbado em transviado. Meu, cê pirô de vez!. Tu tá parecendo até os "cracudos" lá da história do "Roma e da Juli", cê tava doidão? Confessa! Vei, na boa!, cê tá abusando do rapé. .

Diante de tamanha relutância, e o grande volume de interjeições e questionamentos, Shakespeare abre um vasto sorriso e diz:

(Shakespeare) - Vocês estão certos. Me acordaram desse louco sonho, ainda estava dormindo sem perceber. Talvez não estejamos mesmo preparados, melhor é deixar tudo como já está.

E fitando-os soltou estrepitante gargalha, aplaudiu-os, abraçaram-se, despediram-se e seguiram suas vidas.

Para o bom entendedor pingo é letra.
Para o falso entendedor a letra mata.
Para o mau entendedor é letra-morta.
E o que não tem moral quer matar a letra.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O povo e os bordões.


É comum ouvirmos dentre os ditos mais populares, na maioria das vezes, fragmentos de pensamentos, frases soltas, que em conjunto com idéias dissonantes e quase sempre inverossímeis, formam sofismas que podem corromper as sociedades, principalmente porque muitos seres carregam consigo a preguiça de refletir, pois se debruçassem de fato o raciocínio sobre tais expressões, por menos intelectualizados que fossem, encontrariam tais distorções morais quase que de imediato nessas afirmativas.

Diz-se que: "Uma mentira repetida muitas vezes, por muito tempo, acaba tornando-se uma verdade". Ora, como pode ser isto? Será que uma verdade repetida muitas vezes tornar-se-á mentira? Que teorema é esse que mal suporta ao primeiro exame da lógica? De onde se origina tamanho absurdo? Qual a finalidade de se postular tal pensamento, que pela ignorância do povo, se torna endêmico e já está apto a tornar-se uma máxima, uma Lei? Quem lucraria com isso?

Podemos talvez apontar sua origem nos processos motivacionais, que possuem o intrínseco objetivo de elevar a auto estima pessoal ou de profissionais diversos para o desempenho das atividades laborais ou mesmo para as lutas do dia-a-dia, pois a repetição de algumas máximas nesse processo, podem modificar o comportamento do indivíduo para um melhor enfrentamento da vida. Frequentemente usa-se a máxima  de auto sugestão  de Ben Sweetland (I can - Posso) "...Se repetires uma sugestão com bastante frequência, embora possas ter dificuldade em aceitá-la sinceramente nas primeiras vezes, ela, com o tempo, virá a ser adotada...". Isso nos aponta sua provável  origem.

Daí querer transferir para o outro esse processo assemelha-se à indução mental, a mais pura lavagem cerebral. Nem sempre aquilo que funciona pra você funcionará para o outro. Ainda mais quando tenta-se transformar coisas inverídicas em realidades aceitáveis, que combinada com a maldade e a má intenção dos humanos, manipulam a verdade a conta de suas pérfidas intenções. A preguiça de reflexão corrobora com tal vilania, pois aqueles que se dão ao trabalho de refletir pela coletividade, escravizam suas mentes usando sofismas semelhantes. 

Para combater isso temos que, "Uma mentira é e sempre será mentira, mesmo que muitos estejam repetindo e acreditando nela, e uma verdade será sempre uma verdade, mesmo que muitos não acreditem nela". O fato de não acreditar em uma verdade, explica-se pela ação do ser humano, e da sua não aceitação, ou mesmo pelo fato de querer elevar suas ideologias acima dos fatos, ato de teimosia ou má intenção.

Vivemos tempos difíceis, a guerra constante entre a humanidade de um lado e a ética e a moral no front oposto.  Assistimos e ouvimos todo o dia os maiores absurdos proferidos e cometidos por homens que estão à frente, e que portanto deveriam liderar e conduzir seus rebanhos, e que no entanto como vorazes lobos os oprimem e os abatem paulatinamente,  trazendo ruínas,  desespero e desesperança as sociedades. São cegos condutores de cegos. Que possamos pois, abrir os nossos olhos, porque já nos disse Platão: "...O castigo dos bons que não se interessam pela política é ser governados pelos maus que por ela se interessam...".

O bem põe fim ao caos, ao passo que o mal com ele se compraz. A verdade alia-se ao tempo que por fim, sempre a revela.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O livre arbítrio e a imprensa livre


Uma informação relevante ao homem, é clara, objetiva, isenta de paixões e interesses que lhe corrompam o propósito. Esses são os princípios norteadores de uma imprensa livre e desinteressada.

Olhando por esse lado, a sociedade se pergunta hoje, que papel deveria desempenhar a imprensa no mundo moderno? A imprensa hoje tão envolvida com as questões políticas e sociais, movida por interesses partidários, que influenciam as sociedades com os pontos de vista pessoais de seus colunistas, deixando de ser apenas veículo, para exercer papel de condutora de dissenções sociais e políticas, papel aliás bem diverso de quando deixava ao cargo do livre arbítrio dos seus leitores, promoverem as ações pertinentes aos acontecimentos de maior vulto.

Pra quem discorda desse argumento, e acredita que essa imprensa nunca existiu, talvez não se recorde que escribas e copistas, sempre existiram em todas as épocas da humanidade desde que surgiu a escrita, e que portanto na sua crescente evolutiva, desempenharam papel de destaque nas comunidades, não só registrando a história, mas trazendo a tona a voz surda dos oprimidos e tentando abrir os olhos e ouvidos dos indiferentes. A máquina de Gutenberg, veio apenas tornar mais rápida a disseminação de pensamentos, acontecimentos sociais e científicos, mas deixando que o homem se posicionasse sempre em relação a questão exposta. A renascença e as reformas que o digam primeiramente, não fosse assim as 95 teses de Lutero, teriam morrido ainda nascituras. 

Esse comportamento condutor na modernidade, segundo "Kundera", fez com que a imprensa sancionasse um "décimo primeiro mandamento", que "é o direito de exigir do interlocutor a verdade dos fatos", independente de sua vontade, suplantando por completo o seu livre arbítrio e seus direitos inalienáveis. Isso explica a multiplicidade de profissionais de todas as matizes, que hoje encontram-se alojados confortavelmente no seio da mídia, já que encontram campo nos interesses sociais mais diversos, transformando a imprensa de hoje  em veículo da bisbilhotice social.

Inicialmente a imprensa marrom, era rechaçada pela imprensa dita "verdadeira", mas depois que os homens, principalmente os políticos, observaram os efeitos devastadores causados pela calúnia, abriu-se campo aos tabloides sensacionalistas, e hoje vejo uma imprensa recheada de cores e objetivos. Se a marrom calunia e difama, a rosa exalta e afama, e essas duas são ligadas diretamente a imagologia, já que uma denigre e depõe enquanto a outra enaltece e cultua o ícone social. 

As imprensas azul, silver (prata) e golden (dourada) se confundem, já que querem passar ao leitor a ideia de um mundo feliz e harmonioso, se a primeira é comprometida por ideologia política, a segunda é aquela que se vende aos interesses políticos sem qualquer ideologia, enquanto a última quer apenas vender a imagem de mundo perfeito, mostrando ao público a opulência e a ostentação em que vive uma parcela bem pequena da sociedade, como se isso fosse o padrão, ignorando as dificuldades e os problemas infinitos da grande maioria, vivendo o verdadeiro mundo do faz de contas. 

A vermelha apesar de estar bem próxima da realidade, no entanto afasta-se dos objetivos, porque tem no exagero a forma de comoção social; violências, revoltas, injustiças de um mundo que beira o caos e a anarquia, nada está bom, o mundo está eclodindo; não podemos ler suas páginas sem sair manchados de sangue ou mesmo em estado de puro desespero. 

E por fim a imprensa branca, que tenta minimizar os efeitos nocivos que as outras cores, principalmente a vermelha causam nos seres, querendo apascentá-los, confortá-los e acenando com mensagens de paz, entendimento e paciência em um  mundo de crescente horror e distonias sociais, com as promessas de um futuro venturoso para humanidade. Seu conteúdo político e social é brando, com a vertente do olhar sempre otimista. 

E o repórter é mais um profissional dos inúmeros já conhecidos, que surgiu antes mesmo que o seu ofício adquirisse nome, e que portanto antes do modelo de prensa mecânica de Gutenberg no século XV, quantos não exerceram o ofício de repórteres na história? Como não lembrar dos primeiros registros de civilização rudimentares nas paredes de cavernas, trazendo seus costumes e culturas? Como esquecer os profetas que diziam-se portadores de revelações divinas? e do próprio Cristo, "...Eu vim da parte do Senhor...para anunciar a boa-nova aos pobres..." e depois "...ide e espalhai pelo mundo a boa nova...". E os navegadores e desbravadores? Todos fiéis seguidores e portadores dos princípios que norteiam a verdadeira imprensa.

E se toda informação é um direito, já que está ligada diretamente ao exercício do livre arbítrio de cada ser, e se a imprensa deve ser o seu fiel veículo, afim de que chegue ao homem isenta de qualquer ideia preconcebida, é também dever de todo o receptor compreende-la antes de quaisquer deliberações. Sendo assim, se a boa nova não foi compreendida; a história fora ignorada e os conteúdos atuais quando não são fúteis ou inverídicos e preconceituosos, causando mais digressão do que coesão nas sociedades, é porquê talvez ainda não saibamos usufruir da liberdade conquistada e tão pouco exercer nosso livre arbítrio, porquê as nações  desde que conheceram as guerras, não as cessaram  jamais. Hoje além dos conflitos religiosos, étnicos e ideológicos, vivemos também violento conflito moral, e a imprensa que tem hoje como máxima que "...em uma guerra, a primeira vítima é a verdade....", muito longe se encontra dos princípios que um dia nortearam o seu propósito.