domingo, 26 de abril de 2015

O Corcel Desembestado



Frequentemente observamos, acontecimentos que tomam as atenções da mídia e de um público, cada vez mais sedento de informações, sejam elas verídicas ou inverídicas, completas ou não, afinal o que importa isso? Já tentaste dizer a quem tem sede, se a água que sorve no ato do seu desespero, vem de fonte pura, salobra ou cujo o lençol se encontra amplamente contaminado? Provavelmente, sua mente focada na supressão daquela necessidade, nem registrará a sua observação. Nesse exato momento, em que a razão é substituída pelo instinto de sobrevivência, não atentamos para os perigos ocultos, e as consequências que poderemos enfrentar a seguir. Os acontecimentos futuros serão fruto do nosso desequilíbrio e invigilância, e esse enceguecimento, é o efeito da mais pura paixão humana, cujas causas residem sempre no egoísmo e no orgulho, que aninhados como siameses chafurdam a humanidade a séculos.

Toda vez que deixamos a razão de lado e nos entregamos ao governo dos instintos, abrimos caminho para as paixões, principalmente as más. E se o instinto de preservação, nos foi benéfico na infância, a partir da adolescência deverá ser lentamente substituído pelo crivo da razão, e que na juventude e na fase adulta da existência, passamos a coexistir a dualidade "Razão e Sensibilidade", até atingir a sonhada maturidade, e nos tornarmos permanentemente razão, deixando dormitar nossos primitivos instintos.


Quando não nos preocupamos com a origem e a finalidade das informações que buscamos freneticamente, estamos sendo levados por essas duas más paixões, e pior ainda, quando as disseminamos de forma irresponsável com a mais leviana capacidade de síntese, não só esquecendo "As três peneiras" de Sócrates, mas atropelando o direito a privacidade e o direito amplo de defesa do outro, esquecendo que o direito que você "acha que possui" de saber e conhecer os fatos contrapõe-se ao direito que as pessoas têm de não verem expostas as suas vidas privadas. 

Allan Kardec, sábio do século XIX, Filósofo, Educador e Codificador da Doutrina Espírita, referia-se a paixão, como um corcel, que se domado e com rédeas justas e firmes, seria benéfica e aliada do homem, a fim de impulsiona-lo ao progresso, retira-lo do estacionário trazendo por consequência avanço à humanidade. Em contrapartida, longas e frouxas essas amarras ou mesmo inexistentes, o corcel seria indomável, inconsequente, imprevisível e por fim incontrolável, porque esse comportamento é inerente a sua natureza. No seu íntimo e nos seus instintos mais primitivos, entende a liberdade como condição básica a sua existência, não permitindo o encarceramento. Assim é a paixão, se não for lapidada, submetida à razão, torna-se tresloucada, desmedida e perigosa.

Kardec portanto, subdividia a paixão em dois estágios, pois a entendia como pedra preciosa, que do estado bruto a lapidação deveríamos empreender grande esforço próprio. Sabia que a negligência nesse esforço poderia nos ser de grande prejuízo. E quantos não foram os homens de gênio que ao dominar parcialmente ou na totalidade suas vigorosas paixões, criaram, descobriram e por fim realizaram, tornando-se grandes vultos e grandes precursores da humanidade, e que outros tantos perderam-se entre os escombros dos desastres causados pelos seus personalismos doentios, deixaram-se guiar pelo egoísmo,  orgulho,  ganância, vaidade e inveja. O personalismo humano é como um cavalo  chucro, necessita ser domado, caso contrário correrá sempre desembestado. O homem vem ao mundo com sua personalidade embrutecida cabendo a seus pais a primeira fase de sua lapidação, reservando ao indivíduo o restante da tarefa no autoburilamento.


Exemplos numerosos tivemos da negligência humana, sendo o mais recente que me vem a memória, a morte da Princesa Diana, que perseguida por "paparazzi" sofreu violento acidente dentro de túnel que ligava a França à Inglaterra, acabando por ceifar sua curta existência. Tudo para alimentar tablóides sensacionalistas, que tem por finalidade alimentar a nossa fome de informação. Informação essa que não traria nada de construtivo a humanidade,  somente alimentaria a egolatria, idolatria e imagologia sociais.


É comum na área criminal, vermos a segurança pública, na busca desenfreada de dar uma rápida resposta a sociedade, ceder a pressão da opinião pública, leia-se imprensa,  acusar inocentes e apresenta-los precipitadamente a uma mídia e população sedentos de sangue. Enquanto isso o verdadeiro culpado se distancia da justiça amparado pela cortina de fumaça que a ignorância coletiva joga sobre os fatos. Mais uma vez somos nós  os culpados, que com a nossa pressa de viver, fazer e conhecer reservamos pouco tempo da nossa vida para meditar, observar e esperar. Esquecemos que Deus não levou apenas 5 dias para criar a nossa morada, mas 5 bilhões de anos, e que somente há alguns milhares de anos surgimos, e portanto fomos os últimos a chegar num mundo perfeito, mas como nos encontramos  ainda longe da perfeição, pois fomos criados simples e ignorantes e depois de todo esse tempo em constante evolução, nada justifica que permaneçamos ainda egoístas e orgulhosos.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Comunidade, Identidade e Estabilidade


Quem já se deparou com estas três palavras, e se sabe que as mesmas formam um lema, uma meta. É porque já esteve diante da mais eminente e mais famosa obra de Aldus Huxley. Mais do que um simples lema, tais palavras representavam no seu sentido mais amplo, o futuro da humanidade, formando uma sociedade alienada, condicionada desde sua fase embrionária, governada por seres sem moral e sem sentimento, que por trás de sua bondade aparente, dissimulavam ambição e desejo de poder. Sempre o mesmo,  no discurso do tudo pela felicidade,  pela harmonia e pela paz, puro eufemismo encobrindo o orgulho,  o egoísmo e a vaidade.

Na referida obra de Huxley, classificada como ficção científica, onde o autor nos dá o seu ponto de vista para o futuro em que convergia a humanidade, porque já a observava adoentada, perdida em discussões filosóficas e científicas estéreis, utiliza o avanço da ciência,  em particular a medicina no que diz respeito a genética, aliada a teoria administrativa de Ford, para impregnar sua história e formar uma sociedade feliz e promissora, claro que, aos olhos da ciência materialista e de um mundo envenenado pelos regimes totalitários,  que se sucediam em várias partes do planeta.

Nesse mundo perfeito,  onde não havia mais espaço para a filosofia,  ciência,  religião, liberdade de expressão e pensamento, em que toda a sabedoria, a história e Deus perderam espaço nas consciências. Mundo esse, em que a imortalidade da alma fora esquecida e substituída pela promessa da longevidade juvenil, onde a fuga da realidade era constante e qualquer indício de sentimento e paixão eram imediatamente substituídos por alucinógenos potentes.

E tudo isso só era possível, graças ao virtuosismo da revolucionária ciência genética,  que não só produzia os seres em castas socialmente condicionadas desde a sua fase embrionária, mas atuava de forma condicionante no indivíduo também na sua tenra idade, utilizando técnicas hipnopédicas alienantes, praticando a mais pura lavagem cerebral,  inserindo mensagens cheias de moral distorcida, dogmatizada por aforismos vazios.

O resultado,  uma sociedade pacífica, incapaz de questionar, feliz de uma felicidade vazia, sem noção, sem contexto, sem sentimento. Uma sociedade onde formar família era uma imoralidade, onde não existiam pais, já que todos eram resultados de fecundação in vitro, não haviam relações afetivas, já que todos pertenciam a todos, numa ética e moral distorcidas,  não existia ciúmes e nem traições, nem crimes, nem cobiças.

Orgulhavam-se disso, pois foram condicionados a subtrair a realidade com cápsulas de entorpecentes para viver no mais perfeito dos mundos onde as relações de afeto eram puro retrocesso e as drogas eram as libertárias do espírito, tudo em busca de uma pseudo liberdade. Acontece que nessa liberdade vigiada, mal conseguiam perceber o cárcere, já que viviam acorrentados a uma ortodoxia,  travestida de prosperidade, pois o mal que dormitava em cada ser, era dispersado ora pelo torpor,  ora por gritos de ordem que ecoavam em mentes vazias, doutrinadas a fugir do auto domínio, buscando sempre outra realidade aceitável, dentro de padrões ético e moral fugazes.


É estranho observar esta obra,  grafada como ficção científica pura, e que portanto o era de fato, já que fora compilada em 1931, antes mesmo até da segunda guerra mundial.  Mas o mais estranho, é que essa ficção exposta, olhando bem, está muito próxima da nossa atualidade. Louco? Visionário? Como pôde com seu pouquíssimo tempo, que andou sobre a terra, ter visto pra onde a civilização se encaminhava a passos largos? Simples explicar, porque apesar de novos fatos, tecnologias, novas formas e técnicas de dissimulação, aquele “Homem Velho” e imortal ainda reside em nós. Todo instrumento de fuga, é apenas retardatário, e não há fórmulas mágicas, não há milagres, aliás permita-me, existe sim o milagre, mas em cada nova existência reparadora, há o milagre da reforma, isso mesmo, nada como encarar os “Bons e Velhos Problemas de Sempre”.

Vemos hoje, crianças consumirem e serem consumidas pelo alcool e pelas drogas, cada vez mais pesadas, cada vez mais cedo com a participação direta ou indireta dos governos, seja pela política de descriminalização, seja pela falha na batalha contra o narcotráfico, já que a falta de empenho, com leis brandas e a corrupção se tornam verdadeiros "fogo amigo" contra aqueles que estão na linha de frente do combate e que representam o interesse da sociedade nessa guerra. Vemos as crianças, serem condicionadas, com apologias ao sexo e a violência, desde cedo, sem mesmo até terem consciência do que significam, seja através de desenhos, músicas, filmes, novelas e até mesmo no convívio doméstico e institucional, já que tanto no lar, com as desestruturas familiares, onde a moral, a ética e os bons exemplos passam longe, quanto nas escolas que sempre foram a extensão do lar, têm reforçado esse condicionamento doentio, tanto no convívio com seus pares, quanto com aqueles que deveriam corrigi-los e prepará-los para a vida.

A humanidade também foge, se escondendo atrás de ortodoxias religiosas, alguns chegam a criticar as escrituras, que foram compiladas desde o século III até o século XVI da nossa era, depois de tantas correções, exclusões, revisões e inserções o seu cunho moral ainda está intacto, e que o homem continua errando séculos após séculos, ao insistir na sua interpretação pela forma literal, distorcendo tudo ao seu gosto e adaptando à sua visão obtusa, chegando ao extremismo, a perseguição e ao ódio.

Não podemos culpar somente a modernidade pelo estrago, mas também o descaso de uma sociedade que se acomodou no conforto, na falta de tempo. Também não podemos e nem devemos atirar pedras nos pais, que vivem uma vida paradoxal, entre o sustento e a dedicação aos filhos.

Aí você concluirá que a culpa deve recair sobre os governantes, sobre a situação do mundo e sua administração moderna e seus fatores condicionantes, erro! Erro porque na verdade, o erro está em nós, pois podemos ter sim o conforto, as tecnologias, a fertilização in vitro, mas que seja para àqueles que não podem conceber pelas vias normais, e que essas técnicas não devem ser substituídas nunca, pela preguiça e falta de coragem de criar filhos imperfeitos, não devemos prescindir o esforço próprio e querer criar seres perfeitos, nos poupando o trabalho.

Isso mesmo! A culpa é nossa, nós nos acondicionamos, nos rendemos à preguiça e a covardia. Tudo isso tem um preço, falta muito pouco para chegarmos no estágio do “Admirável Mundo Novo" de Huxley. Usemos a nossa liberdade de consciência para dar um basta neste “avanço”, quando não estamos andando de lado, estamos caminhando de costas, para frente, mas de costas, mais sujeitos a tropeços, do que se tivéssemos virados de frente, onde poderíamos antever obstáculos e passar por eles com desenvoltura e desembaraço, no mais, seguimos como diz Zé Ramalho, em sua música "Admirável Gado Novo", Ehhhhh eohhhhhh vida de gado, povo marcado ehhh, povo feliz. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Reformar é preciso, resistir, um tanto quanto.



Muito ouvimos na evocação das massas, o direito inequívoco à manifestação. Direito esse lícito, intrínseco, no entanto limitado em se constitucionalmente falando, já que o limite da liberdade de cada um, reside exatamente na região limítrofe do interesse comum.

No momento de exacerbação, momento este em que "nos deixamos" levar por situações alheias a nossa vontade, e que portanto nos fogem do controle a razão, ferimos moral e mortalmente o pretenso bem comum. E é então que percebemos o quão limitado é o nosso sentido de justiça, contraposto ao sentimento que nos move para ele de forma colossal, num movimento que beira a irracionalidade.

Constantemente nos pegamos estarrecidos e absortos em divagações, quando ouvimos certas melodias que ao tempo que nos fincam os objetivos, tornam libertários os ideais, e assim "caminhando e cantando, seguindo a canção", para descobrir enfim, "que país é este", e tentar se desvincular da imagem de massa de manobra, pois freneticamente o "povo foge da Ignorância, apesar de viver tão perto dela". Tanto é que ainda se deixa manobrar por pessoas sem moral e de voz rouquenha, que pregam preconceitos e divisão de classe social em pleno século XXI, justamente à uma Nação que foi construída com o DNA miscigenado de quase todas as nações, o que portanto, não encontra qualquer fundamento. E se todo esse preconceito e essas diferenças sociais gritantes ainda existem, que recaia a culpa sobre a nossa classe política principalmente, mas saibamos também e reconheçamos a parte que nos cabe neste latifúndio.

Assim como os tratores avançam sobre as matas, destruindo e degradando de forma brutal uma indefesa natureza, ultrapassamos constantemente, as vezes sem perceber, o cercado que nos limita sobre o direito alheio, tão consagrado na Magna Carta, e que portanto carregamos sob as axilas, afim de nos protegermos dos grileiros do direito. E esse comportamento, não está restrito somente aos imorais contumazes, pois nós, os ditos ilibados, nos escoramos nas máximas populistas para transgredir as mesmas Leis que invocamos contra o outro, na defesa mesquinha de nossos interesses pessoais. Esse comportamento não é inerente a nenhuma classe social exclusivamente, pertence ao ser, que independente de ser abastado ou não, de possuir ou não o intelecto desenvolvido, reverbera a ignorância latente do seu personalismo, carregado de egoísmo, vaidade e orgulho.

Chega ser engraçado, para não dizer paradoxal, ver o cidadão do alto de sua revolta, repetir os versos de uma música e ser acompanhado por uma multidão aos gritos durante a madrugada em um bar, que nos diz: "Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é este? Que país é este?" Aí eu pergunto: Como? Se nem a voz que se levanta, "em nome da ordem" respeita a constituição, ferindo o sagrado direito daqueles que cedo madrugam, que portanto necessitam do merecido repouso, e que vêem a sagrada Lei do silêncio ser transgredida por uma turba enfurecida e bulhenta.

Ver cidadãos se contrapor de forma violenta contra uma manifestação pacífica, a ponto de agredi-los, usando palavras de ordem que mais se assemelham a uma marcha nazi-fascista, dizendo defender os interesses democráticos da nação. Como? Onde reside a democracia, quando você tenta calar a voz alheia ou mesmo abafa-la, a pretexto de proclamar seus interesses pessoais ou mesmo da instituição que representa? Será que vale tudo a ponto de se defender um ideal? Vale mentir? Vale ofender? Injustiçar? Condenar? Matar? Quando nos apoiamos na máxima: "Os fins justificam os meios", abrimos o caminho para a injustiça e iniquidade, pois neste momento a corrupção e a violência se aconchegarão no seio da sociedade.

Em uma Nação sem moral, dita democrática, onde as práticas de corrupção são rotineiras, vive-se na verdade a Ditadura da "Demagocracia" ou Ditadura da maioria. Pois o nefasto jogo do poder político, apoia-se no populismo, e na satisfação das pequenas necessidades. A maioria do povo mantido numa espécie de cabresto cultural, acaba por perpetuar demagogos pseudo idealistas, que alimentam constantemente as mentes, tais como vasos de barro sempre vazios, com suas flores retóricas. E quanto àqueles que se encontram alijados no lado oprimido da Demagocracia, podem assim sintetizar o seu sentimento: "O meu partido é um coração partido, minhas ilusões estão todas perdidas, os meus sonhos, foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito, eu nem acredito, que aquele garoto que ia mudar o mundo, assiste agora a tudo em cima do muro, meus heróis morreram de overdose e os meus inimigos, estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver".

Deixemos pois, de hipocrisia, todos sabemos que a doença que assola a humanidade, e que a mantém retida no estacionário moral, é a corrupção. Que há muito deixou de ser puramente infecciosa, e que já passou da fase de pandemia, e hoje já se tornou uma anomalia genética, aliás digo, o cromossomo defeituoso está naquele que não apresenta traços de corrupção. E a recessividade desse indivíduo, lhe trará grandes dissabores, já que será discriminado pela grande contingência dos ditos normais, que trazem incrustados no seu genoma o alelo da corrupção, perpetuando a injustiça, o caos social e o consequente atropelamento do direito comum.

Para romper essa desestrutura milenar, incorporada ao ser da humanidade, precisamos combate-la já a partir dos nascituros, pois tão logo tomem de assalto ou pela força o brinquedo alheio, que sejam duramente repreendidos, no entanto com a total ausência da violência, pois somente o amor é capaz de educar o indivíduo profundamente, realizando incisões cirúrgicas no caráter sem deixar quaisquer cicatrizes na alma. Os valores distorcidos e retorcidos nas máximas populares, como "Quem não cola não sai da escola", "Honestidade não enche bolso nem barriga", "Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro", "É melhor um pássaro na mão do que dois voando", devem ser extirpadas e completamente esquecidas. A lei da vantagem e do jeitinho, que na verdade mascaram a corrupção utilizando-se do mais puro eufemismo, devem ficar arquivadas apenas como más referências bibliográficas na história da humanidade. E essa cultura de trocar voto por pequenas vantagens, reside no passado delituoso das crianças, que tiveram afagos contemporizadores ao invés das merecidas reprimendas, afim de conter as suas traquinagens e seus "maus feitos". "Quem me dera ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante, acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes. Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".

E a questão que reboa neste momento é: estará você disposto a abrir mão dos seus interesses pessoais em prol de algo maior? Poderá deixar a sua zona de conforto para lutar com convicção pela causa alheia? Estará apto a defender a reforma agrária mesmo sendo grande latifundiário? É capaz de dar mais do que receber? Seja coerente com as suas cobranças ao outro, pois toda mudança acontece de dentro para fora.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Ter Cinquenta



Viver aos cinquenta, 
É ter retratado no tom de cinza das fotos,
O colorido da vida.
É preparar com muito amor,
O “
gran finale” dos palcos sob aplausos,
A breve despedida.

Chegar aos cinquenta,
É cantar árias ao tempo,
Reviver chegadas e partidas,
E suplantar a dor com a alegria.
Coexistir o sentimento e a razão,
E não dar vazão ao sofrimento,
Mas sorrir de nostalgia.

Encontrar-se aos cinquenta,
Não é chegar a metade do caminho,
É trazer no corpo a tatuagem do tempo.
É Perdoar da juventude o desperdício,
E valorizar cada segundo como se fosse um dia,
Na velocidade lenta para eternizar cada momento.

Ter cinquenta por fim,
É viver na certeza,
Que errou quando se era permitido,
E se acertou foi porque viu com clareza,
Que a vida lhe proporcionou enfim,
O que era pra ser vivido.

Ter cinquenta neste exato momento,
É ter prudência e paciência,
Afim de ludibriar o tempo,
E gozar do que nos oferece a vida,
Com toda a sua opulência,
Sem qualquer tormento.

Ultrapassar os cinquenta,
É querer distanciar-se dos cem,
E aproximar-se dos vinte.
Com a maturidade de hoje,
E a leveza de antes,
É desejar palestrar mais que ser ouvinte.
 


Ser cinquenta é ter vivido metade o antes e querer viver o agora em dobro.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Imagologia e o lado oculto da moeda

Na hodierna sociedade, muito valoramos a opinião alheia a nosso respeito. No entanto, esquecemos de pautar a vida naquilo que é realmente essencial, no que transcenderá a nossa curta existência material. Enquanto cultuamos a imagem que nos foi imposta pela sociedade, tentando coexistir o rascunho, o esboço de nossa personalidade, com a pintura ou caricatura que mais preencha o vazio existencial da nossa cultura hipócrita, de horizonte cada vez mais tangível, perdemos de vista o caminho e sentido, carregando até o fim dos dias um intenso e imenso vazio na alma.

Essa coexistência, na mais das vezes, é o reflexo do ser humano e o seu desejo incontido de ser reconhecido, ser admirado, ser aceito por uma sociedade, que a cada dia elege um novo ícone social, criando esteriótipos variados, afim de preencher os vazios de uma sociedade sem perspectiva e satisfazer os imagólogos de plantão. Por conhecer o seu verdadeiro "eu", ID segundo a psicologia, o ser quer oculta-lo dos seus pares, com receio da não aceitação, enquadra-se, anula-se nos modelos preconcebidos.

Imaginemos alguns indivíduos, e suas histórias pessoais.
Homem maduro, empresário bem sucedido, pai de família, austero, conduta irretocável, porém infeliz. Administra sua vida profissional e pessoal da mesma forma, manifestando constantemente o desejo de que seus filhos tornem-se ou médicos ou advogados ou empresários brilhantes e bem sucedidos como o pai, não aceitando quaisquer outras opções profissionais na vida dos seus filhos, além das que lhes ofereceu. Mesmo que os seus filhos sigam a risca a sua determinação, a médio ou longo prazo, a infelicidade lhe baterá a porta.

Uma jovem, bela, inteligente, de família de classe média, formada, com pouco mais de 20 anos, de casamento marcado, bem empregada no ramo da gastronomia, e que durante uma das provas do seu vestido, em companhia de sua mãe, avó, prima e irmãs, sendo uma delas grávida aos 16 anos, e outra mãe de 2 crianças, fazem graça e apostam quantos filhos a futura noiva trará ao mundo, já que sua avó foi mãe de 8 filhos e sua prima já possui 3 rebentos. Apesar da aparente felicidade durante a frívola conversa, nossa jovem vez ou outra deixa transparecer certa amargura, e divaga em pensamentos demonstrado por um melancólico olhar no infinito.

O pacato rapaz do interior, de poucas posses, difícil vida no campo, simplicidade na aparência, no andar e nos gestos, ingressado na cadeira de engenheiro agrônomo na cidade grande, que enxerga no futuro o conforto, a felicidade e a prosperidade nos negócios da família, que se alegra quando fala da família, traz um amarelo no sorriso quando se refere a própria felicidade.

A felicidade ou a infelicidade de um indivíduo não está relacionada com condição social de onde vem, ou da escolha adequada para se ser bem sucedido, mas reside na plena realização do que se quer realmente fazer, naquilo que devota-se amor, não importando nenhum pouco se conseguirá sucesso, desde que faça com que o seu "eu" esteja satisfeito.

Os formadores de esteriótipos, no intuito de explicar a infelicidade dos nossos personagens descritos, provavelmente postularão que o homem maduro é infeliz pois esconde um perfil de pedofilia, ou de homossexualidade não assumida. Que a nossa jovem, vive a expectativa de um casamento arranjado ou que a profissão esposada lhe tenha sido imposta. E que o nosso rapaz interiorano na verdade gostaria de ser cantor sertanejo ou advogado, transmutando das belas pinturas dos quadros anteriores para o escárnio caricato, a imagologia é criativa e atualizável. Acertam no que diz respeito a supressão do livre arbítrio, no entanto o homem maduro desde jovem sempre sonhou em viajar pelo mundo, como um brilhante pianista. A jovem desejava ser artista plástica e viver sua vida inteira ao lado de sua amiga de infância, por quem tinha profundo afeto. E por fim nosso rapaz do interior nutre ainda o desejo incontido de ser ator. Isso é o que trazem no imo do ser, profundo,  intangível. O paradoxo entre viver ou sobreviver. 

Sustentar a imagologia, é comprometer a própria felicidade. Tal como as moedas trazem oculto o seu real valor quando forjadas, e que portanto são retiradas de circulação e esquecidas, logo que o seu custo para se manter em voga se torne superior ao seu valor de mercado.

Assim como a moeda não sobrevive a inflação, uma imagem idealizada não resiste aos caprichos do tempo. Somente as realizações,  fruto da projeção da personalidade humana,  resistirão as intempéries do tempo e farão companhia as esquecidas moedas na história e nos museus, alcançando a almejada notoriedade e sua consequente imortalidade.

Quanto aos imagólogos, que escrevem a história a sua vontade, esquecem que o tempo aliado das grandes obras, retifica tudo e sempre traz a verdade a lume.