quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Imagologia e o lado oculto da moeda

Na hodierna sociedade, muito valoramos a opinião alheia a nosso respeito. No entanto, esquecemos de pautar a vida naquilo que é realmente essencial, no que transcenderá a nossa curta existência material. Enquanto cultuamos a imagem que nos foi imposta pela sociedade, tentando coexistir o rascunho, o esboço de nossa personalidade, com a pintura ou caricatura que mais preencha o vazio existencial da nossa cultura hipócrita, de horizonte cada vez mais tangível, perdemos de vista o caminho e sentido, carregando até o fim dos dias um intenso e imenso vazio na alma.

Essa coexistência, na mais das vezes, é o reflexo do ser humano e o seu desejo incontido de ser reconhecido, ser admirado, ser aceito por uma sociedade, que a cada dia elege um novo ícone social, criando esteriótipos variados, afim de preencher os vazios de uma sociedade sem perspectiva e satisfazer os imagólogos de plantão. Por conhecer o seu verdadeiro "eu", ID segundo a psicologia, o ser quer oculta-lo dos seus pares, com receio da não aceitação, enquadra-se, anula-se nos modelos preconcebidos.

Imaginemos alguns indivíduos, e suas histórias pessoais.
Homem maduro, empresário bem sucedido, pai de família, austero, conduta irretocável, porém infeliz. Administra sua vida profissional e pessoal da mesma forma, manifestando constantemente o desejo de que seus filhos tornem-se ou médicos ou advogados ou empresários brilhantes e bem sucedidos como o pai, não aceitando quaisquer outras opções profissionais na vida dos seus filhos, além das que lhes ofereceu. Mesmo que os seus filhos sigam a risca a sua determinação, a médio ou longo prazo, a infelicidade lhe baterá a porta.

Uma jovem, bela, inteligente, de família de classe média, formada, com pouco mais de 20 anos, de casamento marcado, bem empregada no ramo da gastronomia, e que durante uma das provas do seu vestido, em companhia de sua mãe, avó, prima e irmãs, sendo uma delas grávida aos 16 anos, e outra mãe de 2 crianças, fazem graça e apostam quantos filhos a futura noiva trará ao mundo, já que sua avó foi mãe de 8 filhos e sua prima já possui 3 rebentos. Apesar da aparente felicidade durante a frívola conversa, nossa jovem vez ou outra deixa transparecer certa amargura, e divaga em pensamentos demonstrado por um melancólico olhar no infinito.

O pacato rapaz do interior, de poucas posses, difícil vida no campo, simplicidade na aparência, no andar e nos gestos, ingressado na cadeira de engenheiro agrônomo na cidade grande, que enxerga no futuro o conforto, a felicidade e a prosperidade nos negócios da família, que se alegra quando fala da família, traz um amarelo no sorriso quando se refere a própria felicidade.

A felicidade ou a infelicidade de um indivíduo não está relacionada com condição social de onde vem, ou da escolha adequada para se ser bem sucedido, mas reside na plena realização do que se quer realmente fazer, naquilo que devota-se amor, não importando nenhum pouco se conseguirá sucesso, desde que faça com que o seu "eu" esteja satisfeito.

Os formadores de esteriótipos, no intuito de explicar a infelicidade dos nossos personagens descritos, provavelmente postularão que o homem maduro é infeliz pois esconde um perfil de pedofilia, ou de homossexualidade não assumida. Que a nossa jovem, vive a expectativa de um casamento arranjado ou que a profissão esposada lhe tenha sido imposta. E que o nosso rapaz interiorano na verdade gostaria de ser cantor sertanejo ou advogado, transmutando das belas pinturas dos quadros anteriores para o escárnio caricato, a imagologia é criativa e atualizável. Acertam no que diz respeito a supressão do livre arbítrio, no entanto o homem maduro desde jovem sempre sonhou em viajar pelo mundo, como um brilhante pianista. A jovem desejava ser artista plástica e viver sua vida inteira ao lado de sua amiga de infância, por quem tinha profundo afeto. E por fim nosso rapaz do interior nutre ainda o desejo incontido de ser ator. Isso é o que trazem no imo do ser, profundo,  intangível. O paradoxo entre viver ou sobreviver. 

Sustentar a imagologia, é comprometer a própria felicidade. Tal como as moedas trazem oculto o seu real valor quando forjadas, e que portanto são retiradas de circulação e esquecidas, logo que o seu custo para se manter em voga se torne superior ao seu valor de mercado.

Assim como a moeda não sobrevive a inflação, uma imagem idealizada não resiste aos caprichos do tempo. Somente as realizações,  fruto da projeção da personalidade humana,  resistirão as intempéries do tempo e farão companhia as esquecidas moedas na história e nos museus, alcançando a almejada notoriedade e sua consequente imortalidade.

Quanto aos imagólogos, que escrevem a história a sua vontade, esquecem que o tempo aliado das grandes obras, retifica tudo e sempre traz a verdade a lume.

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