Muito ouvimos na
evocação das massas, o direito inequívoco à manifestação.
Direito esse lícito, intrínseco, no entanto limitado em se
constitucionalmente falando, já que o limite da liberdade de cada
um, reside exatamente na região limítrofe do interesse comum.
No momento de
exacerbação, momento este em que "nos deixamos" levar por situações
alheias a nossa vontade, e que portanto nos fogem do controle a
razão, ferimos moral e mortalmente o pretenso bem comum. E é então
que percebemos o quão limitado é o nosso sentido de justiça,
contraposto ao sentimento que nos move para ele de forma colossal,
num movimento que beira a irracionalidade.
Constantemente nos
pegamos estarrecidos e absortos em divagações, quando ouvimos
certas melodias que ao tempo que nos fincam os objetivos, tornam
libertários os ideais, e assim "caminhando e cantando, seguindo
a canção", para descobrir enfim, "que país é este",
e tentar se desvincular da imagem de massa de manobra, pois
freneticamente o "povo foge da Ignorância, apesar de viver tão
perto dela". Tanto é que ainda se deixa manobrar por pessoas
sem moral e de voz rouquenha, que pregam preconceitos e divisão de
classe social em pleno século XXI, justamente à uma Nação que foi construída
com o DNA miscigenado de quase todas as nações, o que portanto, não
encontra qualquer fundamento. E se todo esse preconceito e essas diferenças
sociais gritantes ainda existem, que recaia a culpa sobre a nossa
classe política principalmente, mas saibamos também e reconheçamos
a parte que nos cabe neste latifúndio.
Assim como os tratores
avançam sobre as matas, destruindo e degradando de forma brutal uma indefesa
natureza, ultrapassamos constantemente, as vezes sem perceber, o
cercado que nos limita sobre o direito alheio, tão consagrado na
Magna Carta, e que portanto carregamos sob as axilas, afim de nos
protegermos dos grileiros do direito. E esse comportamento, não está
restrito somente aos imorais contumazes, pois nós, os ditos
ilibados, nos escoramos nas máximas populistas para transgredir as
mesmas Leis que invocamos contra o outro, na defesa mesquinha de
nossos interesses pessoais. Esse comportamento não é inerente a
nenhuma classe social exclusivamente, pertence ao ser, que
independente de ser abastado ou não, de possuir ou não o intelecto
desenvolvido, reverbera a ignorância latente do seu personalismo,
carregado de egoísmo, vaidade e orgulho.
Chega ser engraçado,
para não dizer paradoxal, ver o cidadão do alto de sua revolta,
repetir os versos de uma música e ser acompanhado por uma multidão
aos gritos durante a madrugada em um bar, que nos diz: "Ninguém
respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.
Que país é este? Que país é este?" Aí eu pergunto: Como? Se
nem a voz que se levanta, "em nome da ordem" respeita a constituição, ferindo o
sagrado direito daqueles que cedo madrugam, que portanto necessitam
do merecido repouso, e que vêem a sagrada Lei do silêncio ser
transgredida por uma turba enfurecida e bulhenta.
Ver cidadãos se
contrapor de forma violenta contra uma manifestação pacífica, a
ponto de agredi-los, usando palavras de ordem que mais se assemelham
a uma marcha nazi-fascista, dizendo defender os interesses
democráticos da nação. Como? Onde reside a democracia, quando você
tenta calar a voz alheia ou mesmo abafa-la, a pretexto de proclamar
seus interesses pessoais ou mesmo da instituição que representa?
Será que vale tudo a ponto de se defender um ideal? Vale mentir?
Vale ofender? Injustiçar? Condenar? Matar? Quando nos apoiamos na
máxima: "Os fins justificam os meios", abrimos o caminho
para a injustiça e iniquidade, pois neste momento a corrupção e a violência se
aconchegarão no seio da sociedade.
Em uma Nação sem
moral, dita democrática, onde as práticas de corrupção são
rotineiras, vive-se na verdade a Ditadura da "Demagocracia"
ou Ditadura da maioria. Pois o nefasto jogo do poder político,
apoia-se no populismo, e na satisfação das pequenas necessidades. A
maioria do povo mantido numa espécie de cabresto cultural, acaba por
perpetuar demagogos pseudo idealistas, que alimentam constantemente
as mentes, tais como vasos de barro sempre vazios, com suas flores
retóricas. E quanto àqueles que se encontram alijados no lado
oprimido da Demagocracia, podem assim sintetizar o seu sentimento: "O
meu partido é um coração partido, minhas ilusões estão todas
perdidas, os meus sonhos, foram todos vendidos, tão barato que eu
nem acredito, eu nem acredito, que aquele garoto que ia mudar o
mundo, assiste agora a tudo em cima do muro, meus heróis morreram de overdose e os meus inimigos, estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver".
Deixemos pois, de
hipocrisia, todos sabemos que a doença que assola a humanidade, e
que a mantém retida no estacionário moral, é a corrupção. Que há
muito deixou de ser puramente infecciosa, e que já passou da fase de
pandemia, e hoje já se tornou uma anomalia genética, aliás digo, o
cromossomo defeituoso está naquele que não apresenta traços de
corrupção. E a recessividade desse indivíduo, lhe trará grandes
dissabores, já que será discriminado pela grande contingência dos
ditos normais, que trazem incrustados no seu genoma o alelo da
corrupção, perpetuando a injustiça, o caos social e o consequente
atropelamento do direito comum.
Para romper essa
desestrutura milenar, incorporada ao ser da humanidade, precisamos
combate-la já a partir dos nascituros, pois tão logo tomem de
assalto ou pela força o brinquedo alheio, que sejam duramente
repreendidos, no entanto com a total ausência da violência, pois
somente o amor é capaz de educar o indivíduo profundamente,
realizando incisões cirúrgicas no caráter sem deixar quaisquer
cicatrizes na alma. Os valores distorcidos e retorcidos nas máximas populares,
como "Quem não cola não sai da escola", "Honestidade
não enche bolso nem barriga", "Se a farinha é pouca, o
meu pirão primeiro", "É melhor um pássaro na mão do que
dois voando", devem ser extirpadas e completamente
esquecidas. A lei da vantagem e do jeitinho, que na verdade mascaram
a corrupção utilizando-se do mais puro eufemismo, devem ficar arquivadas apenas como más referências bibliográficas na história da humanidade. E essa cultura de
trocar voto por pequenas vantagens, reside no passado delituoso das
crianças, que tiveram afagos contemporizadores ao invés das
merecidas reprimendas, afim de conter as suas traquinagens e seus "maus
feitos". "Quem me dera ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante, acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes. Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".
E a questão que reboa
neste momento é: estará você disposto a abrir mão dos seus
interesses pessoais em prol de algo maior? Poderá deixar a sua zona
de conforto para lutar com convicção pela causa alheia? Estará
apto a defender a reforma agrária mesmo sendo grande latifundiário?
É capaz de dar mais do que receber? Seja coerente com as suas
cobranças ao outro, pois toda mudança acontece de dentro para fora.
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